
Nós dois, um a um: psicoterapia de casal para separar ou reparar?
Eu não quero ganhar
Eu quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
Assim começa a canção “Uma a um” (Tribalistas – Arnaldo Antunes, Carlinho Brown e Marisa Monte, 2002). Como psicoterapeuta de casais, essa música já surgiu em meu pensamento em alguns atendimentos. Muitas pessoas temem a psicoterapia de casal por acreditarem que o processo pode levar à separação. No entanto, o trabalho terapêutico tem como objetivo criar um espaço de escuta onde os incômodos, situações tensas, fantasias, frustrações, medos e anseios possam acontecer num espaço seguro, pela presença de um profissional.
O processo de psicoterapia de casal passa por falar, ouvir, expor conflitos, colocar em palavras silêncios que, não raro, acompanham um casal durante muitos anos. No imaginário coletivo, é comum associar a terapia de casal a um “remexer” em problemas, como se fosse “levantar a poeira” ou trazer à tona aquilo que, ao longo dos anos, foi sendo colocado “debaixo do tapete”. A canção continua…
No fundo
Não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Desde o enamoramento até o surgimento de crises no relacionamento, os anos passam e, na melhor das hipóteses, não é apenas o tempo que passa: pode ser que as pessoas também mudem. As crises chegam e alguns marcos da vida podem contribuir com os conflitos mais significativos, como a chegada do primeiro filho ou a entrada na adolescência por exemplo. Mudanças profissionais podem afetar a relação, bem como aspectos financeiros ou sexuais. Aquilo que propicia movimento ou causa estagnação, tudo depende das histórias familiares, das trajetórias individuais e como essas questões vão se configurando na dinâmica de cada casal.
Entre o enfrentamento dos conflitos e a difícil convivência com não ditos e “mal-ditos”, o que muitas vezes está em jogo são as transformações nas alianças e nos pactos que uniram o casal, frequentemente inconscientes. Vamos imaginar, por exemplo, um relacionamento em que um dos parceiros tem uma história marcada por abusos e violências vividas na infância, e o outro cresceu em meio aos cuidados de uma mãe que atravessou crises depressivas. Pode ser, por hipótese, que este casal tenha se unido em torno do sofrimento, e paradoxalmente, se afastem quando há melhora e mudanças num dos parceiros.
Pode parecer estranho não conseguirem ficar próximos justamente quando o outro melhora. No entanto, neste tipo de dinâmica, um dos parceiros acostumado a cuidar, pode sentir-se “sem função” ou até “sem lugar”. Por sua vez, aquele que se fortaleceu pode passar a expressar o desejo por mudanças que antes não eram possíveis, o que também pode tensionar a relação.
Existem acordos entre os casais que são velados, não conscientes, mas organizadores do vínculo, ou seja, organizam o modo que cada um ocupa certos lugares e/ou funções em relação ao outro. Essas alianças podem tanto favorecer a construção e a continuidade da relação, quanto propiciar padrões de sofrimento, especialmente quando se tornam rígidas ou baseadas em aspectos não elaborados da história de cada um. No exemplo acima, a aliança poderia ser: um adoece, o outro cuida (e nunca entra em contato com a própria vulnerabilidade).
Segue o baile, segue a música…
Corpo a corpo
Me perder
Ganhar você
Compreender a natureza dos pactos inconscientes que existem na relação conjugal é parte do trabalho da psicoterapia de casal e ajuda na compreensão dos desencontros, especialmente a partir do que foi se transformando em cada parceiro ao longo do tempo.
O trabalho terapêutico de casal também pode ajudar a reconhecer o que permanece quando desejos e necessidades se transformam e, por vezes, deixam de coincidir ou complementar. Assim, pode ser importante separar o que é de cada um para haver a possibilidade de reparar o que é do casal.
Em alguns casos, o processo pode apontar para a necessidade de separação não só simbólica, mas também concreta, não como fracasso, mas como uma forma de reorganizar a vida e, inclusive, de melhorar a convivência.
Há casais que se fortalecem durante o processo de psicoterapia de casal e seguem juntos. Outros casais se fortalecem ao descobrir e assumir que ficam melhor separados, seja porque encontram novas formas de se comunicar e conviver, ou mesmo porque manter uma espécie de “distância ótima” foi necessário para proteger a ambos e aos filhos de possíveis violências.
Como é a psicoterapia de casal?
São muitas as motivações que levam um casal a buscar apoio psicológico. Alguns chegam à psicoterapia como forma de acompanhar um parceiro em sofrimento, mas resiste a iniciar um processo psicoterapêutico individual.
Também é comum que o terapeuta seja colocado no lugar de “juiz”, convocado a dizer quem tem razão, numa lógica de “certo ou errado”. Esses são apenas alguns exemplos. Fato é que existem diferentes motivações para iniciar um processo terapêutico e o acolhimento por um terapeuta que buscará propiciar um ambiente acolhedor pode ampliar o diálogo do casal, favorecendo a escuta dos diversos modos de ser e estar no mundo e, quem sabe, transformar a queixa do casal em demanda de trabalho terapêutico.
Uma vez iniciada a terapia, cada casal encontra seu próprio modo de se relacionar com a experiência. Há aqueles que “combinam” conversar sobre os conflitos apenas durante as sessões, como forma de se proteger do desgaste de brigas no cotidiano. Outros seguem elaborando, ao longo da semana, as questões que emergem na sessão de terapia de casal. De um jeito ou de outro, o objetivo é que as sessões abram um canal de comunicação, permitindo a circulação de palavras e afetos antes represados, ampliando as possibilidades de escuta mútua e da condição de elaborar as frustrações que advém do desencontro com o outro e da intolerância às diferenças.
A Psicoterapia psicanalítica de casal segue o fio associativo do que surge na sessão. Aquilo que é estranho e familiar ao mesmo tempo. A escuta psicanalítica no trabalho terapêutico com casais tem o potencial de desenvolver ferramentas que vão sendo criadas sob medida para cada relacionamento por emergir da experiência de ouvir e ser ouvido pelo parceiro, sem recorrer a fórmulas prontas ou generalizações que apagam a singularidade de cada relação.
É possível uma separação que envolva amorosidade? Essa pergunta foi proposta por Ávila (2015) numa conferência sobre psicoterapia de casal. A resposta foi algo como “sim, por que não? Se for para separar, que seja com amor!” Sem romantizar as separações, que podem se revelar processos dolorosos, cuja travessia passa pela possibilidade de elaboração de lutos, essa perspectiva nos lembra que não desistir da escuta ao outro, da esperança nutrida ao falar e ser ouvido, é também expressão da amorosidade num casal. Casando-se ou separando, como na música “Um a um”, reparar algo do vínculo implica, ao mesmo tempo, em empate e soma, em luto, transformação e expansão.
Muito além do tempo regulamentar
Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois

Renata M. R. Miranda

Vanessa T. Calderelli
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