
Do fragmento ao vínculo: Frankenstein e a condição humana
Na história de Frankenstein, o horror não parece estar propriamente na criatura, mas na recusa do criador em reconhecer e integrar sua criatividade, e ainda em abandonar a criatura quando esta já não sustenta suas fantasias narcísicas.
O meme contemporâneo “Eu criei um monstro” brinca com um fenômeno bastante atual, e quem sabe até atemporal: criações e criaturas que se estranham. Brincando com as palavras e a criatividade pensei o seguinte:
Criador
cria-ação,
ativa a cria
criatura.
Cria a dor
e não a atura,
nem a dor
nem a cria.
Criamos versões idealizadas do humano e depois nos assustamos com os efeitos subjetivos disso: Desde o assombro com os pedaços de corpos cultuados nas redes sociais – o nariz perfeito, o abdômen mais trincado, o efeito mágico procurado nas canetas emagrecedoras, etc – até o assombro com o avanço voraz da inteligência artificial e das tecnologias. Instagram e TikTok, por exemplo, intensificam uma experiência fragmentada do corpo e da identidade: pedaços editáveis, performances curtas, rostos filtrados, vidas (des)montadas para o olhar do outro.
No filme Frankestein, quando a criatura diz: “não posso me esquecer do que eu não me lembro… em meus sonhos eu vejo memórias… diferentes homens, aos pedaços”, penso na própria constituição subjetiva: somos atravessados por restos de identificações, pedaços de ideais e imagens desconexas, buscando compor com vínculos que integrem um eu habitável.
Na clínica recebemos sujeitos cujo corpo, descolado da dimensão simbólica, sofre ao se perceber como uma colagem insuficiente diante de ideais inalcançáveis, ou da fixação em fragmentos sem sentido.
Há um momento decisivo no filme em que a criatura afirma ser monstruoso não conseguir morrer e nem viver sozinho. Essa frase toca na realidade de que o desamparo humano não se resolve pela perfeição ou completude narcísica, mas pela possibilidade de reconhecimento e laço. O afeto e o vínculo são os tecidos conectores da nossa mente.
“O milagre – diz a criatura ao criador – não é eu saber falar, mas é você se tornar capaz de escutar”. Em tempos de hiperexposição digital, o horror está na perda da capacidade de nos escutarmos e de reconhecer a alteridade; no impasse entre o imperativo de se expor, sem nenhuma garantia de ser efetivamente visto, ouvido, reconhecido.
No filme, a criatura aprende com a experiência nos vínculos com o ancião e com Elizabeth:
“Eu andei a procura de algo que não sabia o nome. Em vc eu encontrei. Estar perdido e ser achado. Esse é o tempo de vida do amor. E, em sua brevidade, sua tragédia… Isso se faz eterno. Melhor dessa forma partir com seus olhos derramados sobre mim”.
Quando o irmão de Victor finalmente lhe diz “você é o monstro”, rompe-se a ilusão de separação entre criador e criatura. O monstruoso deixa de estar projetado no outro e retorna como espelho. Aspectos antes fragmentados e projetados, como fragilidade, dependência, inveja e solidão reaparecem sob a forma de angústia, ódio ou vazio.
No final do filme, Victor, ao reconhecer a criatura como filho, reconhece que seu próprio nome, que fora escolhido pelo pai, era vazio de sentido, mas na relação com a criatura passa a ter significado. Pede então para ouvir seu nome como foi chamado pela primeira vez, quando “Victor” era o mundo todo para a criatura. A relação entre criador e criatura humaniza-se.
“O coração há de se partir, e mesmo partido viverá.”
O que nos humaniza?
Seria quando o fragmento encontra alguém capaz de escutá-lo, como buscamos fazer na clínica?
A possibilidade de transformar o bruto em palavra, o desamparo em vínculo, e a solidão em experiência compartilhável?

Renata M. R. Miranda
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