Frankenstein no Divã: O Desamparo, o Espelho e os Monstros da Transmissão Familiar

Frankenstein no Divã: O Desamparo, o Espelho e os Monstros da Transmissão Familiar

Contém Spoilers

O que faz de um amontoado de carne um ser humano? E, inversamente, o que faz de um homem um monstro? Dois séculos após a publicação da obra-prima de Mary Shelley, a adaptação cinematográfica dirigida por Guillermo Del Toro (2025) continua a nos convocar para um debate que está no cerne da clínica psicanalítica: a constituição do sujeito, o peso do narcisismo parental e as armadilhas da transmissão transgeracional.

Para além do terror gótico, a saga de Victor Frankenstein e sua Criatura pode ser lida como uma poderosa metáfora sobre o desamparo humano e a busca desesperada pelo olhar do Outro.

O Rosto Oculto da Violência: O Narcisismo como Herança

Toda história de uma criatura começa, inevitavelmente, na história do seu criador. O filme nos apresenta os primórdios de Victor Frankenstein sob a égide de um pai austero, um médico renomado para quem o filho não é um sujeito singular, mas uma extensão narcísica. Victor é obrigado a espelhar o pai na minúcia do conhecimento acadêmico; ele carrega o fardo de perpetuar o nome, a reputação e o patrimônio da família – este último, ironicamente, garantido pela riqueza da mãe.

Há um detalhe clínico avassalador nessa dinâmica familiar: quando decide punir o filho, o pai afirma categoricamente que não vai castigá-lo nas mãos, pois as mãos precisam ser preservadas para garantir a técnica e a precisão na medicina. O rosto, visto pelo pai como o lugar da pura vaidade, é onde o golpe de fato acontece. Sob essa lógica perversa, o corpo do próprio filho é tratado como uma ferramenta utilitária para o futuro, uma extensão do desejo paterno. O trauma físico e psíquico é tolerado e direcionado de forma calculada, contanto que a utilidade técnica do “herdeiro” permaneça intacta. É sob esse pacto de exigências desmedidas e instrumentalização do afeto que o psiquismo de Victor se molda.

O Luto Impossível e a Clivagem Psíquica

Quando a mãe morre, o mundo de Victor desaba em um esvaziamento radical. A perda coincide com a chegada do irmão caçula, que passa a funcionar como uma “luz” para o pai, recebendo um afeto terno que Victor desconhecia. Rejeitado e empurrado para as sombras, o jovem Victor é incapaz de elaborar o luto. Ele não consegue aceitar a máxima paterna de que “a morte é inexorável”.

Para o menino, se o pai era um grande médico e não salvou a mãe, ele é culpado. A obsessão científica de Victor nasce, portanto, como uma tentativa de reversão mágica do trauma e uma vingança inconsciente contra a impotência do pai. Isolado em sua torre – símbolo máximo de isolamento e da onipotência fálica -, ele tenta costurar nervos, canalizar a eletricidade e vencer a finitude. Ao tentar “brincar de Deus”, Victor cruza o limite ético e entra no terreno da perversão: uma ciência puramente mecânica, desprovida de afeto.

O Desabamento da Torre e o Parto pelas Águas Subterrâneas

A virada mais marcante da obra acontece quando a narrativa deixa de ser contada sob a ótica de Victor e passa para a perspectiva da Criatura. Essa transição é desenhada por Del Toro através de uma metáfora visual de imensa potência clínica: a torre de Victor, monumento de sua prepotência fálica, desaba e vira ruína. É a cena da castração de sua onipotência.

Dessa destruição, a Criatura é empurrada para uma galeria subterrânea de águas, deslizando por um túnel escuro até desaguar no mar. Esse escoamento pelas águas funciona como um parto simbólico. É o nascimento traumático e bruto da Criatura para o mundo, onde ela é lançada para fora das amarras literais de seu criador, sendo obrigada a se movimentar, vestir-se, comer e fugir sozinha, operando na pura biologia da sobrevivência e mimetizando a vida pela observação.

Elizabeth e a Inauguração do Narcisismo Primário

É nesse cenário de ruínas e transição que o filme introduz o contraponto fundamental à violência do criador – que agredia e justificava que “a inteligência vem pela dor”. Victor assusta-se com a própria obra, enxergando nela apenas uma ameaça. Em contrapartida, surge a figura de Elizabeth, uma presença feminina crucial que consegue olhar para a Criatura não com o horror do experimento fracassado, mas com uma ternura fundante.

Ao mirar a Criatura com esse afeto genuíno e desprovido de paixão erótica, Elizabeth opera no registro do narcisismo primário. Ela oferece à Criatura um espelho limpo, onde ela pode se enxergar pela primeira vez como alguém digno de cuidado. Elizabeth humaniza o que o criador coisificou: ela dá significado àquela existência e apresenta ao ser um outro nome, uma possibilidade de sentido que não está contaminada pela herança maldita e violenta do patriarca primordial.

O verdadeiro nascimento do sujeito, portanto, não ocorre sob os raios da tempestade na torre, mas quando esse olhar terno se faz presente.

O Olhar que coisifica e o Paradoxo de quem não enxerga

Ainda assim, a Criatura precisa caminhar pelo desamparo. E é na sequência dessa jornada que o filme nos presenteia com outra belíssima lição sobre a alteridade: o primeiro acolhimento estável da Criatura vem de um homem que não podia enxergar. Por estar privado da visão física, ele não é capturado pelo registro imaginário da “monstruosidade”.

O homem cego escuta a Criatura, conversa com ela, apresenta-lhe o mundo através das histórias e a nomeia formalmente como amigo. Se Elizabeth inaugurou o contorno amoroso do corpo, o cego oferece o fundamento do amor fraterno pela via da palavra e da introdução na cultura. Essa relação traduz com perfeição o que a psicanálise sustenta: somos constituídos e salvos do purgatório biológico pelo olhar e pela palavra de quem nos acolhe na nossa falta.

O Espelho Narcísico e a Súplica por Escuta

O tensionamento atinge seu ápice no reencontro definitivo entre Criador e Criatura. Quando o ser descobre suas origens nas ruínas do laboratório e compreende o horror de sua história, ele vai ao encontro de Victor. Ele não pede poder; pede comunhão. Pede uma companheira que, como ele, não morra, para que não precise habitar a solidão eterna de um corpo que não cessa.

A resposta de Victor, olhando para o espelho, é visceral: “Eu nunca criarei algo tão vil e deformado como você”. Victor está projetando no reflexo a sua própria deformidade interna, a sua incapacidade de amar. Diante disso, a Criatura profere a frase que sintetiza a dor de tantos pacientes que buscam análise: “O milagre não é que eu fale, mas que um dia você me ouça”. Falar é um ato mecânico; ser escutado é ter a existência validada.

A Redenção e o Fantasma do Não-Dito

É através do sofrimento extremo e da perda que a binaridade rígida (vida/morte, anjo/demônio) finalmente se desfaz. Na cena de sua morte, Elizabeth deixa a chave interpretativa do tempo do amor: “Tá perdido e ser encontrado. Esse é o tempo do amor”. O amor surge como o entrelugar capaz de dar significado ao sofrimento que a vida ou a morte trazem.

Na cena final, diante da morte iminente de Victor, opera-se um perdão transgeracional. Não se trata de um perdão moral ou católico, mas da capacidade de nomear, assimilar e reconhecer o trauma. Na clínica das heranças psíquicas, o “não-dito” é o fantasma que atravessa paredes e assombra as gerações seguintes. Ao arrepender-se e humanizar a Criatura no último suspiro, Victor quebra a repetição compulsiva e faz o que seu próprio pai nunca conseguiu fazer por ele: ele finalmente enxerga o filho.

Victor transmite à Criatura o nome de seu próprio pai (o avô), inscrevendo o “monstro sem nome” em uma linhagem familiar legítima. Sendo reconhecida e recebendo um lugar na árvore geracional, a Criatura pode finalmente reconhecer Victor como pai e chorar a sua perda. O fantasma da repetição pode, enfim, descansar.

A Terceira Margem: O Analista como Testemunha

Toda essa saga trágica só pôde ser integrada, na história contada neste filme, elaborada e transformada em narrativa porque houve uma terceira margem, uma testemunha: o Capitão. É ele quem escuta o relato de Victor, sobrevive ao horror e impede que a experiência seja engolida pelo esquecimento ou pelo trauma bruto.

O Capitão opera exatamente como o analista na clínica contemporânea. Nós somos essa testemunha viva. É na nossa escuta ativa que os “monstros” e os “criadores” que habitam o sujeito podem sair do circuito fechado da repetição e ganhar contorno no registro do simbólico, transformando pedaços fragmentados em uma história viva e integrada.

“O coração vai se partir, e ainda assim, mesmo partido, continuará a viver.” (Lord Byron)

Image
Vanessa T. Calderelli
Psicóloga clínica de orientação psicanalítica. Atendimento a jovens adultos e adultos. Casais e famílias. Atendimento online e presencial.